Fora do Eixo, mas perto de tod@s

Por Atílio Alencar, Gestor da Casa Fora do Eixo Porto Alegre

Tava lendo o texto que o China, VJ da MTV e também músico, fez publicar em seu blog pessoal. O texto chama Fora do Eixo e Longe de Mim – título explicitamente hostil, embora ao longo dos parágrafos, o autor recorrentemente afirme que não tem absolutamente “nada contra” o Fora do Eixo. Claro. Basta uma leitura rápida e prestar atenção no modo como o apresentador da Music Television elege elementos isolados para corroborar suas “teses” pra sacar que ele deve mesmo estar buscando uma crítica descomprometida. Vide a foto de Pablo Capilé – um dos gestores do FdE – ao lado de José Dirceu. Desconectada do seu contexto original, a imagem é nitidamente usada para sugerir relação sórdidas entre a rede de coletivos e alguém supostamente envolvido em esquemas de corrupção. Claro que a quem interessar ir além das aparências, basta um clic no Google para descobrir que a fotografia foi tirada durante um evento realizado na Casa Fora do Eixo São Paulo, por ocasião do aniversário da Revista Fórum, onde estavam presentes vários pensadores, gestores públicos, jornalistas etc. Há fotos com todos esses interlocutores, em algum momento, ao lado de integrantes do FdE. Mas China, do alto da sua desinteressada postura, preferiu o apelo ao obscuro, à acusação vaga.

Claro que a ética do gajo não pode ser defendida como exemplar: já no início do texto, deixa claro com todas as palavras que obedece cegamente e antes de mais nada ao patrão, independente dos seus princípios. Belíssimo caso de profissional da comunicação. Faz pensar em tantas e tantas redações país afora onde os editoriais e o conteúdo dos artigos são redigidos por quem, acima de tudo, está ali para mostrar serviço ao patrão e seus interesses corporativos. Não raramente, são esses mesmos ilustres representantes da classe pensante do Brasil os primeiros a bravar impropérios contra políticos corruptos, e chegam mesmo a incitar campanhas contra práticas desonestas de parlamentares, juízes, ONG’s, policiais. Tudo em defesa de um Brasil melhor, mais limpo. Mas com as duas mãos descaradamente sujas e agarradas aos benefícios do seu cargo na empresa.

Mas antes que isso pareça uma mera troca de farpas, vamos aos fatos – os verdadeiros contrapontos possíveis ao texto do China.

O Circuito Fora do Eixo é uma rede de coletivos e agentes que trabalha com cultura e política, desde uma perspectiva de sociedade civil organizada. Não negociamos numa lógica de balcão ou clientelismo: somos uma rede que engloba mais de duas mil pessoas que vivem e praticam o compartilhamento de tecnologias sociais, e tudo o que é público é tema nosso. Política pública entra nessa, com certeza. E conto aqui com a inteligência de todos para não ter que explicar que política pública e política partidária são práticas diversas. Se tivéssemos que sintetizar a “causa” do Fora do Eixo, enfatizaríamos a construção de novas formas de gestar processos colaborativos em rede. Veja bem: processos, não produtos. Se algum artista tem a expectativa de que o FdE cumpra o exato papel das antigas corporações da indústria cultural, está equivocado. São papeis e momentos históricos radicalmente distintos.

De acordo com essa forma de pautar cultura e política, o empoderamento de artistas e gestores é o que interessa. Ninguém está atrelado de forma restritiva a necessidade de um mediador. Há sim uma dinâmica de ação em rede que faz de cada ponto a própria rede: tanto faz se o artista é “do Fora do Eixo” ou não. Importa que ele entenda e tenha clareza de que quando se trata de lidar com uma rede colaborativa, ele não está no mesmo tipo de negociação empreendida via mercado convencional.

A partir daí, a autonomia para cada gestor, festival ou coletivo avaliar o potencial da banda, e as tratativas entre artista e contratante, são livres. Podem envolver moeda complementar ou não, Hospedagem solidária ou hotel. Ajuda de custo para transporte ou cachê. Ou investimento da banda no deslocamento e suporte local por parte da produção. Claro que a banda deve avaliar os termos, pensar na relação custo/benefício e entender quando vale e quando não vale a pena investir, quando esse for o caso. O interesse em investir na formação de público, assim como o cuidado com os processos criativos, são deliberados por cada artista ou banda. Quem vai determinar quantas pessoas vão baixar seu disco ou frequentar seu show não é o coletivo ou o festival: as plataformas sevem para dar visibilidade ao trabalho do artista e movimentar toda uma cadeia produtiva. A resposta do público é apenas condicionada por essas plataformas, uma vez que ele passa a ter acesso a um trabalho que não conhecia. O resto fica por conta dos fatores estéticos, econômicos e comportamentais implicados na relação entre público e artista.

A título de ilustração: no sul, bandas como a Pública ou a Rinoceronte, para formar público fora das suas cidades de origem, optaram por investir, num primeiro momento, na circulação por festivais e eventos menores. Sabiam que investir na própria circulação garantiria um retorno a médio prazo, caso a recepção do trabalho fosse positiva por onde passassem. Hoje tocam por todo o Brasil, geralmente com cachês garantidos, outras vezes com ajudas substanciais de custo, mas com certeza já operam num nível diferente daquele primeiro momento. A base de público está formada, a qualidade das bandas atestada. Daí pra frente é continuar criando e circulando.

Agora, falar que tocar para um público de 25 pessoas é ridículo soa esnobe. Qual seria a fórmula para uma banda estrear para plateias lotadas? Melhor ainda: deixa eu contar pra vocês para quantas pessoas o China tocaria se subisse num palco em Santa Maria, Pelotas , Florianópolis ou Curitiba. Pela experiência acumulada em produção de shows no sul do país, eu diria que se chegasse a 25 eu ficaria surpreso. Não porque o trabalho do China seja ruim. Mas achar que clipe na MTV garante público é ingênuo. Hoje todo mundo conhece tua página no myspace, mas o que forma público é, cada vez mais, o show, o contato direto com o público, a performance no palco. Fora isso tudo é instável.

Qual a saída? Se enclausurar no quarto e lamentar que hoje todo mundo tem iguais possibilidades de veicular seu trabalho na rede? Chorar porque as chances de ser tutelado por uma grande gravadora estão cada vez mais escassas? Ou entender que numa época de transições e incertezas as oportunidades são criadas por quem se atreve a protagonizar os processos e compartilhar os modos de circulação?

A resposta parece estar sendo dada bem agora, por quem está se arriscando a desafiar as lógicas passivas da relação artista-mediador-público.

Se a abordagem do FdE prima pela amplitude das redes e não pelo produto mercadológico e suas necessidades imediatistas, está certíssimo afirmar que isso é política. Resta entender onde está o erro em se assumir uma entidade política quando estamos falando de sociedade civil organizada.

E mais: onde estaria o erro em acessar editais públicos de incentivo a cultura se as prestações de conta estão em dia, se a utilização dos recursos obedece as rubricas previstas nos projetos, e se a pulverização da verba é justamente a garantia de que não teremos a concentração do apoio nas propostas com maior apelo mercadológico?

É ilegítimo lutar para que os recursos destinados a cultura sejam acessados por coletivos do Brasil inteiro, e não só pelas inciativas centradas nas grandes capitais?

China pensa o que a MTV manda ele pensar, mas nas horas vagas quer que a gente acredite em sua idoneidade enquanto cidadão. Foi mal aí, China, mas não vai dar pra separar as coisas. Benvindo a realidade do mundo aqui fora: a gente fala enquanto artista, trabalhador e cidadão, tudo ao mesmo tempo.

A honestidade quando convém não faz de ninguém um homem honesto.

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61 Comentários

  1. Raquel - Coletivo Retomada disse:

    Enqto muitas pessoas ainda estão com a cabeça voltada pro capitalismo selvagem, hj vivemos uma queda desse sistema financeiro que já é sentida até mesmo no campo empresarial, estudo administração e os conceitos e teorias estão cada vez mais voltados pra sustentabilidade e economia solidária, visto que o índice de desemprego e poluição ambiental na déc. 90 foi algo exorbitante e o esperado para esta déc. é algo ainda mais assustador, portanto temos sim que criar mecanismos pra superar essas barreiras e o FDE vem mostrando a força que tem nesse cenário pois é constituído por pessoas altamente qualificadas para continuar a dar exemplo de democracia e sustentabilidade que deveriam ser apoiadas por todos que se preocupam em construir um mundo melhor ;)

  2. caio costa disse:

    Ótimo texto, “…A honestidade quando convém não faz de ninguém um homem honesto”…fantástico, ilustra bem o China!

  3. ... disse:

    1- É verdade os boatos vindos de dentro do FDE que está se pensando em formar um partido político representante do movimento FDE? Porque se for verdade estaria se iniciando um politica partidaria, o que vai de encontro com o que foi apresentado no seu texto.

    2-Certa vez, Capilé argumentou que não pagaria cachês para as bandas participantes de um festival organizado em Cuiabá (com incentivo do governo) pois teria que pagar cachê para a banda Matanza, sob o argumento de que eles levavam público para o festival. esse foi um fato real e vai também de encontro com a frase “Se a abordagem do FdE prima pela amplitude das redes e não pelo produto mercadológico e suas necessidades imediatistas”

    3- o FDE tem uma pagina na internet com o orçamento aberto do dinheiro que entra através de editais e a maneira como ele é gasto? Tipo um portal de transparência (algo tão necessario hoje em dia em empresas e grupos sustentaveis e de economia colaborativa). Pois me parece muito estranho a Casa FDE de São Paulo promover festas dominicais onde as bandas não ganham cachê, mas a cerveja e o churrasco é de graça pra quem quiser.

    Agradecido pela atenção
    Tuca

    • João disse:

      quem fala dos churrascos de domingo na casa fora do eixo em são paulo dessa maneira é pq nunca foi ou nunca nem viu flyer. Não tem nada de graça. O próprio público coloca grana numa caixinha que fica no bar. Festa colaborativa total! Precisa nem dizer que é sucesso, ne?

      • ... disse:

        Poxa, então, eu já fui muitas vezes lá. Creio que umas 8 vezes.
        E te falar que nunca tinha reparado nessa caixinha do bar. E ninguém que foi comigo ou que eu sei que frequenta as festas de domingo me informou sobre isso.
        E nunca vi flyers das festas de lá.
        Na verdade, conversando com umas pessoas da própria casa, fui informado que grande parte do dinheiro usado vinha dos pontos Fora do Eixo de outras localidades do Brasil. Por isso escrevi aqui para me informar melhor.

        E João, se caso vc tomou minha dúvida em relação ao dinheiro da festa como algo ofensivo ou que te incomodou, não era essa minha intenção.Era apenas uma dúvida. Creio que não era necessário uma resposta tão ríspida e debochada.
        Acredito que um debate e uma duvida devam ser tratados de uma maneira no mínimo respeitosa para que se leve alguém a sério.

        Obrigado pela atenção e ainda esperando respostas em relação as dúvidas.
        Tuca

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